Ruídos Estruturais
Vitor Mazon

O ferro e a madeira sustentam o mundo construído. Da carpintaria vernacular às colunas de aço dos
arranha-céus, esses materiais estruturam não apenas edifícios, mas a própria experiência da
modernidade. Lucas Quintas se apropria dessa materialidade fundamental para criar um campo de
tensões onde o material não se submete à função, mas renegocia sua presença. Se o ferro fundido
foi a espinha dorsal da Revolução Industrial e a madeira, a base das primeiras arquiteturas humanas,
sua convergência ressoa tanto na história da construção quanto nos processos industriais que
redefinem a paisagem urbana.
Formado em Comunicação Social pela ESPM, Lucas encontra sua poética ao confrontar os
desperdícios do setor de eventos em São Paulo, onde madeira e ferro, essenciais para a sustentação
de palcos e cenografias, são tratados como efêmeros. Mas o descarte não dissolve sua presença
estrutural; apenas os desloca para fora do campo de visão dos organizadores e frequentadores.
Quintas resgata esses materiais e os reinsere em um novo jogo de forças, onde as marcas do uso e
do tempo tornam-se parte da composição.
Entendendo que o material não é fixo, mas um resultado de intra-ações — encontros que
reconfiguram sua própria natureza — sua pesquisa se desenvolve na negociação entre estrutura e
instabilidade, deslocando o conceito de matéria para o de fenômeno. Seus trabalhos operam nesse
regime: não há passividade na madeira, nem neutralidade no ferro. São corpos tensionados, que
respondem ao toque, ao tempo e ao peso, manifestando ruídos estruturais que desestabilizam a
previsibilidade dos materiais.
Se a contemporaneidade busca ocultar a rugosidade dos materiais por meio de superfícies lisas e
contínuas, Lucas Quintas trabalha encontrando e criando fissuras. Sua prática desvia do polido, do
acabamento que dissimula a brutalidade da matéria, e nos restitui o contato com os elementos brutos
que sustentam o mundo construído. Suas construções instauram uma dialética entre peso e leveza,
contenção e descontrole, questionando a estabilidade estrutural dos elementos que as compõem.
Ao expandir o desenho para o espaço, Lucas amplia as possibilidades de leitura, criando um campo
perceptivo onde as relações se refazem a cada olhar. O rigor geométrico, que poderia sugerir
exatidão, se desfaz na experiência: os materiais vibram, os limites oscilam, os encaixes denunciam
seus próprios ruídos estruturais. No embate entre o visível e o instável, o artista propõe um espaço
de negociações, onde a forma nunca está inteiramente dada, mas em constante reivindicação.