"Geometria Possível'
Rafael Tenius
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Conceber, projetar, construir e experimentar; estes são alguns dos movimentos que ditaram a produção artística de Lucas Quintas ao longo dos seus oito anos de construção. Em meio de cordas fios, pesos de chumbo, estruturas de madeira, o artista constrói dispositivos que jogam luz em questões como peso, volume, tensão, que, para um público iniciado, lembrarão Palatinik, Max Bill, Clark e as noções que pautaram a vontade construtiva brasileira e seus retornos neoconcretos. Lucas Quintas trabalha com a redescoberta de um mundo, à primeiro olhar, já visitado pela arte e sua história, mas seu olhar atento e terno para as formas e materiais que constituem o universo de seu trabalho, registrando o peso de cada esfera, a elasticidade de cada corda, o volume de cada suporte de madeira, fazem dele muito menos uma referência do que o resultado de uma descoberta empírica sobre o mundo. Ouvimos ecos de um concretismo recriado, acessado pelas contradições do corpo e contaminações do ambiente, mas o que perdura é seu próprio processo.
Apesar da clara filiação com a herança concreta e neoconcreta, reduzir suas experimentações ao registro geométrico do desenho concretista ou as ações participativas da arte não é capaz de dar conta de seu trabalho, ao contrário, seus processos, que envolvem materiais de reuso, nos propõe algo que chamo de uma geometria do possível: mesmo retilíneos, nunca mimetizam o desenho, pois este é encarnado pelos materiais, suas nuances e características próprias. Possível pois o material nunca permitirá a perfeição geométrica do desenho, ele apresenta pequenas “sobras”, pequenas “irregularidades” que, longe de competir com o desenho, agregam a ele valor escultórico. Ao conceber seus projetos nunca buscou esconder seu dispositivo, muito pelo contrário, as construções de madeira, por onde as cordas se esticam e se prendem, ocupam igual importância em sua construção poética, em que imagem e estrutura se mesclam. Sua composição geométrica, contudo, ao mesmo tempo que se concretiza pelo material, é sempre posto à prova pelo mesmo, cujas propriedades encontradas fazem um contraponto com as certezas que o ato de projetar encarna.
Reunindo materiais industriais de uso corrente, ora de reuso, ora encontrados na cidade, opera uma noção de rearranjo, em que a forma se constitui a partir dos materiais e suas possibilidades. Assim, Lucas Quintas expande sua composição para um diálogo com o ambiente e as “coisas do mundo”. Assumidas, trazem para dentro do trabalho uma gama de significados, como a sua composição, forma de produção, função comumente atribuída. Este rearranjo possível é arejado pelo artista por inúmeros links com o mundo cultural e social.
A sociedade moderno-industrial, que nos distanciou da produção artesanal de objetos, gerou uma variedade nunca antes vista de materiais e cores no cotidiano moderno. Desta multiplicidade, ela trouxe a disciplina industrial, que prometia a precisão matemática da cópia seriada. A indústria, contudo, não se absteve de constantes erros de fabricação, cópias imperfeitas e objetos quebrados. Para além da fragilidade dos processos industriais, estes objetos podem ser lidos como alegorias de uma dinâmica social em crise, onde o culto à padronização acompanha um desenfreado descarte de materiais, objetos e pessoas. Nas cidades, espaços de acúmulo de lixo vão se expandindo e acompanhando, numa ironia cruel do capitalismo, as regiões mais pobres e precarizadas. A sociedade, que não consegue parar de produzir e descartar é a mesma que não consegue remanejar sua riqueza de bens produzidos para uma cada vez maior massa de trabalhadores precarizados.
Desta paisagem insustentável de acúmulo e de escassez, que acompanha o imaginário das grandes metrópoles brasileiras, Lucas Quintas absorve essas imperfeições encontradas, se relaciona com elas, pois seu fazer artístico se faz e se expande a partir de constantes exercícios de relação.
Convidado a ocupar a iniciativa de instalações ao ar livre, organizada pelo artista Marcelo Lago em São Francisco Xavier, no interior paulista. Lucas Quintas traz a ampliação de um trabalho da série Tensão, que consiste numa estrutura de madeira que sustenta por meio de cordas amarradas, três esferas de cimento. O espectador, convidado a manipulá-las, brincando com seu peso, tem experiências muito distintas no trabalho ampliado. Se no primeiro trabalho, menor, ainda permite uma manipulação na escala da mão e dos dedos, a obra, em grande escala, oferece uma ativação de corpo inteiro, de forma que o espectador ensaia sair de sua posição convencional frente a obra de arte.
Esta relação renova o problema da linha em seu trabalho. Fora do espaço seguro da galeria, do contraste da parede branca, a linha enquanto dado visual gravita, se misturando com as árvores que se apresentam na paisagem. Ela passa a ser percebida pela experiência tátil e senso gravitacional, onde formato e peso tem mais destaque e importância. Se Leonardo da Vinci, em um de seus célebres tratados, defende que o desenho é coisa mental, o desenho de Lucas Quintas se insurge, silencioso, como força matérica. Com esta permissão, suas linhas não têm medo de se confundir com os liquens e musgos que surgem, ou quiçá um passarinho que venha pousar e fazer abrigo, E nesta interminável contradição que sua linha se insere, entre a abstração da ideia e a concretude da matéria, a virtualidade do projeto e a objetividade do espaço e seus agentes, que Lucas Quintas joga o público, que ganha a oportunidade de entrar no jogo e experimentar novos formatos perceptivos, onde as hierarquias entre corpo e mente possam ser burladas e relações de automação, tanto de uma quanto na outra, podem ser postas a prova. Este sentido ético reoxigena sua relação com a herança do projeto neoconcreto, para além das aparências. Sua geometria possível se expande então, para além de diálogos visuais com o mundo, mas multissensoriais e ecológicos.
Rafael Tenius