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O Armador de Jogos

 

Lucas Quintas é um artista do jogo. Não é um imitador ou adepto de releituras: gosta de armar jogos, ou todo bom estrategista, faz uso de ferramentas racionais para obter o que almeja. Sua obra funciona como um jogo, e como todo jogo para acontecer. Esse "terceiro" é o espectador ou artista e seus trabalhos provocam sensações, ilusões e contínuas "traições" sensoriais.

 

Para se armar um jogo é necessário cálculo, projeção e experimentação. Falamos, portanto, de uma estratégia armada sob o signo da racionalidade, no entanto, de uma poética frio e impessoal da palavra. Existe no trabalho de Lucas Quintas uma curiosidade: é entender o que e como as coisas são feitas. Apenas o produto final lhe interessa: o caminho até ele é igualmente fundamental. E nesse sentido que a razão opera aqui: ela não é um experimento árido, mas sim um meio de se demonstrar o que está por trás do jogo.

 

Deste modo, a pesquisa de nosso artista é composta de uma sucessão de experimentos com diferentes elementos. Em trabalhos mais recentes, como da série Sistemas, Quintas decompõe sobre o papel algumas cores. Uma série de linhas, todas dispostas horizontalmente ao longo de uma composição vertical. que muda a concentração: na parte superior estão extremamente próximas, de modo que formam um todo, ao passo que, conforme se caminha para baixo, vão se separando e se tornando cada vez mais isoladas. A cor, bem como uma misteriosa curva presente em todas elas, ressoa por todo suporte, ou suporte, criando um efeito ondulatório. Como se jogássemos uma pedra na água e observássemos as ondas disso resultantes.

 

Vizinhos, de 2019, consiste em duas estruturas com molduras de madeira e formadas por uma sequência de fios e dispostas lado a lado. Um tortuoso horizonte marca as composições e as ambas compostas por linhas verdes. Embora inferior de ambas compostas por linhas verdes. Embora sejam feitas do mesmo material e a presença de verde em ambas seja extremamente parecida, a caráter tortuoso da linha nos confunde, fazendo a distribuição parecer desigual. Aqui, Quintas, traduz na forma de jogo visual, o famoso ditado "a grama do vizinho é mais verde do que a minha". Trabalha com elementos visuais puros, mas sem perder o elo com a cultura em que se insere.

 

O mesmo pode se dizer de seus trabalhos cromáticos que se sucederam, no qual fios coloridos são matéria prima. Criando estruturas nas sobrepondo, constrói a partir dessas interações de cor, formas e imagens cambiantes de acordo com a posição de quem vê. Atinge inclusive a escala da arquitetura, projetando esses coloridíssimos filamentos e os produtos resultantes dessa interação em paredes e muros. Mas é, ainda que esteja jogando com seu público, faz questão de ressaltar o processo que o levou até o resultado final, e disso decorre um enorme respeito pelos materiais com que trabalha. Nosso artista não destrói nem molda nada, ao contrário, apenas coloca para interagir: linhas de algodão, gavetas, chassis e pregos de madeira, muitas vezes já descartados, mas que são integralmente respeitados. Prova disso é seus coloridos filamentos criam jogos animados e sofisticados, mas que, na parte de fora da moldura de madeira, vemos alguma simples rebarbas de fios pendurados que nos recordam de que tudo aquilo foi feito e onde o raciocínio tão complexo partiu. Mostrando que, quando o raciocínio é bem construído, até o mais ordinário material se torna valioso.

 

Theo Monteiro

Curador

 

Revisitando o OP Art dos anos 60, Lucas Quintas provoca, e o olho do espectador é quem responde. Criando ilusões de espacialidades ópticas, somos guiados a formar e realizar desenhos imaginativos da construção visual. É tratado frente do espectador, por meio de seus materiais e seu manuseio, cenários de tensão e leveza, em dubiedade, que se entrelaçam e corroboram-se em movimentos metafóricos traduzidos diferentemente por quem os entorna. Dessa forma, a obra traz consigo necessidade da interação, não só empírica, mas física, um diálogo rodeado e observado por diversos ângulos e posições, apresentando-se de forma diferente cada vez que nos deslocamos no espaço, somos introduzidos a possibilidades visuais, matemáticas que transfiguram-se em destrezas plásticas.

 

Lucas Quintas não se designa apenas à experiência estética, e sim à personalidade e singularidade que a obra adquire, e conforme é vista, e por quem é vista, sendo, cativa e proporcionalmente paralela ao que se coloca como observação sensível.

 

J. Souza

Assistente de curadoria

Texto e Curadoria: Theo Monteiro

Local: Dila Galeria

Data: 13/05 - 30/06/2023

Produção:Andréa Alves

Atualizado 03/2026

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