DIS [TENSÃO]
As obras de arte de Lucas Quintas expostas na Galeria Tato, São Paulo, Brasil, se articulam como uma constelação discursiva que dialeticamente permeia e evidencia a densidade nos processos de concepção, construção e disposição; poíesis que hibridiza com uma poética peculiar em sua potência para se inserir nos interstícios do sistema
contemporâneo das Artes Visuais.
Interstícios ou frames que são intercalados entre o formal e a subjetividade do conceitual e o espacial. Em quase cuasi-corpus 1 que [dis] tensionam a partir das cartografias que desenham racionalidade e autonomia. Relações diretas ou indiretas das obras entre si, em si com os espectadores e com o espaço arquitetônico em dimensões reais e sensoriais
ilimitadas.
As linhas que se traçam como pontos contínuos para construir desenhos tridimensionais projetados em instalações. Nessas distensões das linhas as geometrias deambulam e desmancham formas voláteis e
efêmeras.
E como coloca o artista
"É uma série de obras de arte onde utilizo materiais convencionais como pregos, fios, pedras e gavetas
descartadas, manipulando-os com proposições experimentais, que se relacionam com o mundo da física, se valendo da
força, do equilíbrio, da resistência e da gravidade."
Materiais reconhecíveis, reciclados por vezes, que ganham uma nova função que entrelaçam desafios, interdisciplinaridade, questionamentos a partir da arte e que volatilizam da representação literal ao simbólico.
A transposição dos desenhos às linhas (sem perder suas relações com a matriz técnica da sequência de pontos) acontece uma vez coletadas as matrizes violentadas (gavetas, madeiras, chumbo) e estruturadas para sua nova atribuição. Distensão 28 (2022/2025), exemplifica esta afirmação.
A partir dos desenhos registrados nos cadernos de artista e na transposição cíclica as instalações se intercalam e aparecem problemas e soluções que o artista precisa resolver. Aqui, como em toda pesquisa de Lucas, o gesto se vulcaniza em todos os momentos do processo artístico.
"As obras são mecanismos que articulam as potencialidades físicas e visuais dos materiais e situam-se entre objeto e instalação explorando a tridimensionalidade e a espacialidade."
Foram essas hibridações de materialidades, espacialidade e tridimensionalidade meu primeiro contato com a pesquisa de Lucas, e surge aí , na sua densidade projetiva, meu encantamento por sua produção artística, reforçado pela densa peculiaridade de tensionar as obras de arte, os espaços arquitetônicos e a pertinência fluida da participação dos espectadores, como Distensão 30, (2022/2025), prego, fios de polipropileno sobre gaveta descartada.
Em Distensão (2022/2025), série que dá título à exposição (a última do artista até aqui), é possível verificar a capacidade criativa do artista. Lucas faz irradiar na versatilidade dos materiais, sobretudo, nos diferentes tipos de ex-gavetas que agora na sua nova função traz a sensorialidade a partir dos tensionamentos formais, conceituais e espaciais, e nas suas metáforas as partituras de sinfonias em erupção.
"Trata-se de uma produção orientada por um movimento, que gera um deslocamento, seja dos materiais, do olhar do observador ou do meu próprio corpo no embate com o material. Aplicar sobre os objetos a força mecânica resultando em mudanças de posições de um objeto em relação ao espaço. O trabalho requer movimentos precisos,
pois qualquer modificação pode desequilibrar as forças vetoriais."
Nessas dissonâncias ressonantes de semânticas e fonéticas entre as séries Tensão (2019/2025) e Distensão (2022/2025) há a impermanência volátil dos títulos das obras de arte na exposição.
Na série Circuito Interno de Tensão (2023/2025), onde é possível definir milésimas variações nas linhas, e em Deslocamento da série Ilusão (2020/2025), onde os fios são colocados nos dois lados do chassi para renovar categorias como espaço-tempo, tensão e distensão, movimento e matéria,
[...] A morfologia orgânica destas peças aponta a uma nova estruturação do suporte do suporte bidimensional, gerando um objeto ambíguo que entrelaça o plano pictórico com fiscalidade escultórica, onde os elementos já não estão condicionados pelo movimento mecânico de formas geométricas agrupadas.
O conjunto de obras na exposição deixa em evidência a solidez da pesquisa artística de Lucas pela morfologia constitutiva dos materiais explorada espacialmente e constatada na disposição que denunciam as ações dos e nos mesmos, ativando fatores de proximidade e semelhança, simulacros nos movimentos para projetar e sugerir relações diretas e/ou indiretas dos espectadores e/ou participantes com as obras de arte e com o espaço arquitetônico dialeticamente.
Andrés I. M. Hernández
Curador
São Paulo, Outono de 2025
Texto e Curadoria: Andrés Hernández
Local: Tato Galeria
Data: 26/04 - 1/06/2025
Produção: Tato DisLascio





















